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Inclusão Travessias: Os Vários Nomes da Deficiência

Publicado em 07/12/2021

Por Marco Antonio Gavério

Em uma de nossas últimas publicações apontei para a emergência do Dia Nacional da Pessoa Deficiente Física[1]. Muitas pessoas podem ter se perguntado se esse termo, pessoa deficiente, é correto; se ele ainda pode ser utilizado; ou qual a melhor forma de se referir às pessoas que possuem alguma deficiência.

Em sentido geral, desde os anos 1990, o termo oficializado é Pessoa com Deficiência. Desde então, esta terminologia tem sido amplamente adotada pelos movimentos e políticas sociais destinadas às pessoas antes coletivamente definidas como deficientes. Ao mesmo tempo, essa terminologia foi um desdobramento da linguagem e das modalidades de reivindicação que o próprio Movimento Político das Pessoas com Deficiência adotou ao longo dos anos 1960 e 1970.

Assim, emergiu a ideia de que o termo “pessoa” precisaria vir primeiro na identificação sociopolítica dos indivíduos até então denominados somente como deficientes (CHARLTON, 2000; FLEISCHER; ZAMES, 2001; SNYDER, 2006; MELLO, 2009; RALSTON; HO, 2010). Em 1981, com a promulgação do Ano Internacional das Pessoas Deficientes, vimos como essa nova forma de se referenciar social e politicamente adentrou nas gramáticas e práticas governamentais. Ao longo dos anos 1980 e 1990, portanto, o termo pessoa deficiente abriu espaço para a atual terminologia pessoa com deficiência. Em sentido amplo, a noção de pessoa com deficiência significa que o indivíduo não se resume à sua deficiência; ou que a deficiência é uma das muitas características, possibilidades de definição e identificação dos indivíduos.

Contudo, o termo pessoa deficiente, ou apenas deficiente, ainda permanece na gramática e nas formas contemporâneas de autorrepresentação produzidas por partes dos movimentos e ativistas da deficiência. Talvez isso tenha ligações com uma dimensão geracional. Isto é, ativistas da velha guarda[2], ou os mais jurássicos[3], do movimento de pessoas com deficiência nasceram, cresceram ou foram socializados nos momentos em que os termos oficiais e comuns de suas épocas eram o incapaz, o inválido, a deficiente, a pessoa deficiente[4]. Ao mesmo tempo, muitos desses e dessas ativistas que nasceram entre os anos 1950 e 1980, vieram ressignificando muitos termos e propondo ainda outras modalidades de compreensão sobre a deficiência.

Em resumo, por mais que o termo deficiente possa parecer pejorativo e antiquado, muitas parcelas do Movimento de Pessoas com Deficiência o utilizam com outros significados políticos. Muitas vezes a utilização de termos que não são facilmente aceitáveis, ou considerados ultrapassados pela sociedade, pode ser uma estratégia dos movimentos políticos demonstrarem que avançamos em algumas pautas e que outras ainda permanecem irresolvidas[5].

Assim, precisamos compreender as mudanças terminológicas na relação com variadas disputas e lutas políticas em torno das formas de representar, histórica e linguisticamente, determinados fenômenos. Dessa forma, conseguiremos, cada vez mais, compreender como as identificações sociopolíticas colocadas em movimento pelos e pelas ativistas com deficiência se correlacionam com variadas disputas nas políticas da linguagem.

[1] Inclusão Travessias: 11 de outubro – Dia Nacional da Pessoa Deficiente Física – Museu da Inclusão (museudainclusao.org.br)

[2] Termo usado por Tuca Munhoz.

[3]  Termo utilizado por Anahí Guedes de Mello. Mello também salienta que esse termo tem origens no Movimento Brasileiro pela Vida Independente.

[4]  No nosso Projeto Diálogos e (Re)Conexões – 40 anos do AIPD tem sido possível observar, através das lives, como as diferentes gerações de ativistas dos Movimentos por Direitos das Pessoas com Deficiência elaboram variadas terminologias para se referir às dimensões sociais e históricas da deficiência.

[5] Um dos exemplos mais recentes de terminologias consideradas ultrapassadas ou pejorativas e que vem sendo reapropriadas e ressignificadas pelos movimentos políticos e pelos estudos acadêmicos críticos na área da deficiência é a noção de aleijado.  Para considerações sobre essas reapropriações ver: MELLO, A. G.; GAVERIO, M. A.. Facts of Cripness to the Brazilian: dialogues with Avatar, the film. ANUÁRIO ANTROPOLÓGICO, v. 44, p. 43-65, 2019; GAVERIO, Marco A.. Medo de um Planeta Aleijado? – Notas Para Possíveis Aleijamentos Da Sexualidade. Áskesis – Revista dos Discentes do Programa de Pós Graduação em Sociologia da UFSCar, v. 4, p. 103-117, 2015.

REFERÊNCIAS:

CHARLTON, J. I. Nothing about us without us: Disability oppression and empowerment. Berkeley, CA: University of California Press, 2000.

FLEISCHER, D. Z., & ZAMES, F.  The disability rights movement: From charity to confrontation. Philadelphia, PA: Temple University Press, 2001.

MELLO, Anahí Guedes de. Por uma abordagem Antropológica da Deficiência: Pessoa, Corpo e Subjetividade. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2009.

SNYDER, S. L.  Disability studies. In:  ALBRECHT, G. L. (Ed.). Encyclopedia of disability. Thousand Oaks, CA: Sage Publications, Inc. pp.478–490, 2006.

RALSTON, D. C.; HO, J. (Eds). Philosophical Reflections on Disability. Dordrecht: Springer, 2010.

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